Expo Milão 2015

O pavilhão do Brasil para a Expo Milão 2015 – vencedor do iF DESIGN AWARD 2016 na disciplina  Arquitetura de Interiores,  é resultado da sinergia entre profissionais de diversas áreas que, juntos, buscaram criar proposta capaz de transcender as barreiras entre arquitetura, expografia, evento e conteúdo para transmitir imagem contemporânea do país, sob o tema “Brasil: alimentando o mundo com soluções”. Os escritórios Studio Arthur Casas e Atelier Marko Brajovic, em colaboração com os curadores Eduardo Biz e Rony Rodrigues, e com o escritório italiano Mosae, trabalharam intensamente ao longo de 2014 e de 2015 para transformar em realidade o projeto laureado.

O desafio apresentado pela Apex-Brasil consistiu em propor abordagem inovadora que correspondesse à visão do país como nação líder na produção agrícola. O evento que ocorreu em Milão, em 2015, possui particular relevância não apenas pela temática essencial da agricultura, mas também por abordar o legado urbano e programático da própria Expo. O desenvolvimento sustentável pautou o projeto brasileiro em todos os âmbitos, constituindo alicerce fundamental que mescla edifício e conteúdo em uma só experiência imersiva.

O símbolo que sintetiza todo o projeto é a ideia de rede, que representa a horizontalidade da distribuição heterogênea de elementos capazes de, juntos, lograr produzir a sinergia necessária às indagações e às soluções coletivas. Se, por um lado, o Brasil é reconhecidamente potência do agronegócio, por outro, os enormes avanços tecnológicos aqui desenvolvidos e seus impactos globais permanecem relativamente ignorados por boa parte das sociedades. Apresentar o Brasil real, que enfrenta o desafio de desenvolver sua economia e de preservar seus recursos naturais, por vezes de forma contraditória, por outras, de forma extraordinariamente construtiva, constitui paradigma que corresponde à rede, traduzindo relações variadas, mutantes e resilientes.

Um dos parâmetros de construção dos conceitos que permearam o tema do concurso adveio de estudo realizado pela Box1824, que analisava a percepção de nosso país desde o ponto de vista das mais variadas culturas (Inglaterra, Alemanha, França, China, Índia, Colômbia e Nova Zelândia). Trabalhar com a alteridade nos pareceu elemento-chave para conseguir desconstruir estereótipos e despertar a curiosidade sobre a complexa realidade brasileira, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora. Daí surgiram quatro vocações elementares: Império das Cores, Fusão Criativa, Sabedoria Natural e Poder Humano.

Apesar de amplas, todas estas temáticas evocam as infinitas possibilidades de relação entre homem e natureza, além de apontarem caminhos possíveis para o entendimento de valores que forjam a brasilidade. Alegria e autenticidade; experimentação e liberdade criativa; conhecimento da biodiversidade e herança cultural milenar; inclusão social e relações humanas. São muitas as referências que, aos poucos, moldaram nosso pavilhão em Milão.

Se a agricultura é provavelmente a mais importante atividade a demonstrar a interdependência entre humanidade e natureza, seria impossível apresentá-la de forma autônoma na Expo 2015. Assim, as referências buscam abertura, permeabilidade e fluidez para transformar o tema da agricultura em indutor de experiências abrangentes de um universo cultural em permanente desenvolvimento.

O pavilhão é formado por três elementos basilares: uma praça protegida, uma grande rede de forma orgânica e um edifício polivalente. Estes elementos estão todos entrelaçados e não possuem limites claros entre si, ao contrário, formam um percurso holístico que apresenta as mais diversas possibilidades aos visitantes, desde os que passam alguns minutos aos que gastam horas naqueles espaços. O projeto geral da Expo, de Stefano Boeri e Jacques Herzog, buscou desde o início evitar que fossem criados meros objetos icônicos, a competir pela atenção do público. Os grandes eixos cobertos por estruturas tensionadas deveriam privilegiar o convite espontâneo, e a ideia de criar um respiro, por meio da generosa praça aberta, nos pareceu um diálogo necessário para com o restante do evento.

A grande estrutura metálica de tons terrosos, como o solo ferroso de nosso país, transmite esse convite sincero ao abrigo e ao encontro. Cinquenta e um anos atrás, na mesma cidade de Milão, durante a XIII Triennale, Lúcio Costa conclamou os italianos a seu “Riposatevi” por meio de redes que os convidavam a relaxar e aproveitar seu tempo livre. Hoje, outra rede faz o mesmo pedido e almeja apresentar o Brasil do século XXI. Sob os gradis metálicos que brincam com a luz e protegem como uma pérgola, enquadrando a paisagem milanesa, um caminho toma a forma de um rio sinuoso, inspirado nos meandros do Amazonas. Trata-se de transpor algo que pode parecer irreconciliável para os desavisados: agricultura e preservação de ecossistemas. Portanto, o Brasil tem logrado reduzir drasticamente os índices de desmatamento; tem explorado cada vez mais os meios para coexistir com a floresta, para que ela gere riqueza de pé; sobretudo, tem conseguido aumentar exponencialmente a produtividade de terras já cultivadas, utilizando alta tecnologia. Quantas pessoas sabem, por exemplo, que o Brasil utiliza apenas 30% de sua área cultivável e que dobrou sua produtividade média por hectare nas últimas duas décadas? Assim, nesse caminho sinuoso, foram plantadas distintas espécies selecionadas pela EMBRAPA que ilustram avanços da tecnologia nacional.

As temáticas iniciais transformaram-se em clusters que abrangem diferentes áreas da agricultura. Distribuídas em uma trama de 125cm X 125cm, com alturas que variam de 20 a 100cm, caixas que foram transportadas em contêineres contém espécies variadas, organizadas em torno de ideias como nutrição, agricultura familiar, sistemas agroflorestais e integração entre lavoura e pecuária. A trama cartesiana brinca com paisagens orgânicas, num rico jogo de sobreposições e diálogo entre a mão do homem e a obra da natureza. Deambulando por entre as plantas, os visitantes encontrarão mesas interativas e observarão que a rede participa dessa demarcação fluída entre as temáticas.

Esta rede estende-se do solo até o segundo pavimento, num grande gesto lúdico, capaz de condensar símbolos tão diversos quanto o encontro dos povos e a interdependência entre ecossistemas. Será um instrumento musical interativo, cuja trilha sonora se adapta de acordo com o número de participantes e seus movimentos. Capaz de abrigar até mil pessoas ao mesmo tempo, trará inéditas perspectivas em relação ao próprio pavilhão, instigando as pessoas a terem novos pontos de vista sobre nossa cultura. A simplicidade do seu desenho esconde complexos cálculos estruturais e adaptações à restrita legislação de incêndio italiana. Em sua lateral, rampas conectam os três pavimentos e instigam os visitantes a percorrer o pavilhão com toda a liberdade.

O edifício polivalente, revestido em cortiça que também remete aos tons da terra, abriga diversas funções e é indissociável da parte exterior, numa relação permanente de porosidade.  No térreo, foi criado um grande espaço multiuso, com um auditório de pé-direito duplo separado do foyer por uma grande estante curva em madeira, composta por nichos no qual estarão expostas peças de artesanato brasileiro. Este espaço é marcado pela obra dos irmãos Campana, um banco orgânico em vime que se estende para criar assentos sinuosos para o café, convite à permanência e ao encontro num lugar que seria apenas de passagem.  Na extremidade do pavimento, uma pop-up store comercializará objetos relacionados ao país e à expo, com abertura para a pequena praça externa na lateral do lote, pensada para o descanso e suporte para instalações artísticas.

O segundo andar abriga a galeria interativa, banhada pela luz natural da parede curva feita em profilit. Uma instalação do artista Laerte Ramos, composta por suas “casamatas” de cerâmica, flutuará suspensa por cabos, questionando nosso modo de ocupar o espaço e de nos relacionarmos com a natureza. Telas, mesas interativas e avançados sensores servem de suporte digital para mostrar o rico conteúdo que aborda sustentabilidade, agricultura e cultura, com a participação ativa dos visitantes, conciliando a imagem do Brasil que utiliza tanto alta tecnologia quanto delicadas micro-esculturas do artista Nazareno para contar-se para o mundo.

Neste mesmo pavimento, o restaurante será utilizado não apenas para apresentar a gastronomia brasileira, mas também para exibir um pouco do design nacional. Será dominado pela grande mesa comunitária modular, flanqueada por 40 cadeiras de diversos designers brasileiros, desde mestres históricos, como Joaquim Tenreiro e Sérgio Rodrigues, a nomes emergentes no cenário nacional. Acima das mesas, uma luminária inspirada em jiboias, feitas com miçangas pela tribo Yawanawá, colore e unifica o espaço linear. Buscamos integrar todas as escalas do projeto e, em colaboração com a marca italiana Poliform, o Studio Arthur Casas desenhou o par de cadeiras Lampião e Maria Bonita, além de mesas que estarão tanto no restaurante quanto no foyer principal. Desta maneira, a atmosfera do país faz-se presente desde pequenos detalhes, como a escolha de objetos, tecidos e materiais que remetem ao nosso modo de viver, ao grande panorama que transmite a generosidade e a alegria acolhedora do Brasil.

Finalmente, o terceiro pavimento contará com um corredor no mezanino da galeria, diante de uma tela transparente que flutua acima do pé-direito duplo, exibindo conteúdo de acordo com o movimento dos visitantes. Na parte posterior deste andar, estarão situados escritórios e espaços para eventos selecionados pela APEX, que ocorrerão no lounge sobre o restaurante.

A estrutura será facilmente desmontada, já que foi concebida em módulos metálicos, permitindo fácil reciclagem das partes e sua remontagem em outra área da cidade de Milão, que a receberá como doação após o evento. Captação e reciclagem de água, além de otimização da energia permitirão racionalizar os gastos durante os seis meses do evento e assegurarão impacto mínimo ao meio-ambiente.

O pavilhão do Brasil na Expo Milão 2015 almeja trazer novos elementos para a tradicional participação nacional nesse tipo de evento. Com olhos no futuro, busca demonstrar que o Brasil logrou excelência em uma das áreas cruciais para a humanidade, a agricultura, em permanente movimento para criar novos paradigmas no relacionamento de sua sociedade com a natureza, em simbiose transformadora capaz de traçar novas estratégias para o país. Mais que marcar a presença dentre tantas outras nações, o pavilhão brasileiro almeja inspirar curiosidade e engendrar novos relacionamentos para além dos seis meses do evento, demonstrando ser possível concretizar utopias e inspirar soluções que, como o tema da Expo 2015, alimentem o planeta e tragam energia à vida.

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