Ícone do design brasileiro, a poltrona Mole, de Sergio Rodrigues, completa 60 anos

Aos 6, 7 anos, quando chegava em casa da escola, o designer Zanini de Zanine apostava corrida com os irmãos Pedro e Helena para ver quem conseguia se sentar primeiro numa espaçosa poltrona de madeira maciça, com os pés arredondados e um assento exageradamente convidativo, para assistir a desenho animado.

— Desde criança, no meu registro da sala de casa, tinha esta poltrona. No apartamento do Rio e no de Brasília. Como sou o caçula, poucas vezes conseguia ganhar. Então, a poltrona sempre foi um objeto de desejo — conta Zanini, de 39 anos.

A poltrona Mole, um ícone do design nacional, está em pleno aniversário, completando 60 anos sem perder a majestade. O criador da peça é o designer e arquiteto Sergio Rodrigues — nome que enfileira uma série de adjetivos como prestigiado, talentoso, genial, simpático e modesto —, morto em 2014, aos 86 anos. Um sujeito de fisionomia marcante, quase sempre equipado com boina (de feltro ou couro), camisa e calça sociais, colete, óculos de grau e bengala.

— A poltrona Mole é a mais célebre das peças criadas por Sergio Rodrigues. Com o móvel, ele expressou os valores da cultura brasileira no design, inventou a informalidade e o conforto do nosso mobiliário — afirma Fernando Mendes, parceiro de trabalho de Sergio e presidente do instituto que preserva seu acervo (antes dele, quem cuidava da fundação era a mulher de Sergio, Vera Beatriz, que faleceu este ano).

O móvel faz parte até hoje da decoração do apartamento de Zanini, no Leblon. Não exatamente o mesmo de sua infância, mas uma variação da Mole (foram feitas três versões) está num cantinho ao lado de um rádio vintage contemporâneo à peça.

— Agora, por acaso, peguei uma bem desgastada, de jacarandá. Nem refiz o estofado. É onde eu sento para desenhar, com o pé jogado para cima — detalha o designer, que faz rascunhos num caderninho.

O relacionamento de Zanini com a Mole não é mole. Na adolescência, teve a chance de estagiar durante um ano no escritório de Sergio Rodrigues, amigo de seu pai, o também mestre do design brasileiro José Zanine Caldas. No “minimuseu”, como chamava o ambiente de trabalho, participou do estudo de um novo encaixe para o móvel.

— Fiz maquetes para um encaixe diferente do braço da poltrona que não foi para frente. O escritório foi onde pude conhecer o Sergio não só como profissional, mas como ser humano. Ele tinha uma vibração e um olhar muito substancial sobre a arquitetura e sobre como lidar com as pessoas — reflete.

A história de Zanini é apenas uma pitada da infinitude de relatos da lendária poltrona. O móvel nasceu em 1957, a pedido do fotógrafo Otto Stupakoff, que encomendou de Sergio um sofá no qual pudesse “se refestelar como um sultão” — depoimento dado à imprensa na época, reproduzido até hoje. Dos rascunhos, projetou a poltrona. Na tentativa de divulgar o sofá na mídia, o autor propôs que Otto a fotografasse à beira-mar. Lá vem história.

Personalidades participam de ensaio com a poltrona Mole nas ruas do Rio

— O Sergio queria fazer uma série para o catálogo da Oca (loja de mobiliário criada pelo próprio em 1955, na Praça General Osório, em Ipanema). Então, chamou o amigo para fotografar na praia. A maré subiu e esse ensaio ficou famoso — recapitula a arquiteta Lia Siqueira, de 58 anos, coautora do livro “Conversas ilustradas: Sergio Rodrigues”.

Para comemorar a efeméride, escalamos seis cariocas de diferentes áreas, felizes proprietários da Mole, para posar com ela ao ar livre em cenários marcantes do Rio. Arpoador, Lagoa e Mirante Dois Irmãos emprestam o visual para o ensaio que ilustra esta reportagem. O cartão-postal escolhido por Lia?

— Meu sonho era enfiar a poltrona na areia, como o Sergio fez um dia. Ele ficou em cima de uma pedrinha com as mãos na cintura quando a onda veio — lembra a arquiteta.

O capítulo que aproximou Lia e Sergio tem 20 anos. Convidados de um casamento, eles foram colocados numa mesma mesa. Começou ali um papo que durou anos. Ela é hoje autora, ao lado do arquiteto Ivan Rezende, de um dos muitos livros sobre a obra de Sergio Rodrigues.

 — Foram encontros em lugares que falavam alguma coisa sobre sua história. Alguns no escritório, outros em restaurantes, pois ele era um gourmand, e no MAM, onde exibiu exposições. Levá-lo a esses locais era uma maneira de manter o frescor de sua memória — analisa Lia.

Enquanto tricotavam, Sergio desenhava. São dele as mais de cem ilustrações inéditas que estão no livro, entre imagens em que retrata a si próprio, esquetes de mobiliário e lembranças do trabalho e da infância, desde o desenho de uma caneta que ganhou de presente até um laço de fita que as irmãs usavam.

— Ele ilustrava os testemunhos. É como se congelasse os momentos de sua vida através dos desenhos — diz Lia.

 

Coautora de um livro sobre Sergio Rodrigues, Lia Siqueira posou na poltrona no Arpoador para relembrar história em que o sofá Mole foi atacado por uma onda – Divulgação / Pedro Loreto

Outra personagem desta história, vestida de roupa de ginástica preta para o ensaio de fotos, a escritora e professora Heloisa Buarque de Hollanda, de 77 anos, esparramou-se na poltrona Mole em plena Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

— Não quero parecer uma dondoca sentada no trono. Posso ler e-mail? — pergunta ao fotógrafo Pedro Loreto, autor deste ensaio.

Na semana em que a Mole foi lançada, na década de 1950, Heloisa foi à Oca comprar a sua. Até hoje a peça exerce a função de cadeira cativa em seu apartamento.

— Eu mudo de casa a cada três anos, e ela vem junto. A Mole já desempenhou os maiores papéis. Uma coisa que acho engraçada é que fui trocando o estofamento para não enjoar. Ela já esteve até de pijama, listradinha, de azul e branco. Eu pensei: “Ela está tão cansada, ficando velhinha, que vou botar pra descansar” — brinca Heloisa.

Completamente obcecada por mobiliário, ela coleciona em seu apartamento em Ipanema um par de poltronas Diz, também assinadas por Sergio Rodrigues, e uma mesa de quatro metros quadrados de Jader Almeida.

— Tenho mania de design. Meu apartamento se resume a uma mesa cheia de livros, com computador, em que eu faço tudo. Escrevo, como, recebo. É do tamanho da sala. Minha Mole (hoje estofada de linho azul-marinho) fica do lado — descreve a escritora.

Nos anos 1990, quando mobiliou o primeiro apartamento, a premiada artista plástica Beatriz Milhazes, de 57 anos, comprou seu primeiro móvel de Sergio Rodrigues: um baú. Corridas duas décadas, em 2010, cismou que queria ter uma mesa com sua assinatura. Visitou antiquários e desistiu.

— Minha mãe é professora de História da Arte. Sempre fui interessada em design. Cresci visitando a Oca. Queria comprar uma mesa do Sergio, mas estava muito difícil de achar. Contatei o estúdio como cliente normal, e o próprio respondeu. Expliquei que estava procurando uma original, e ele me disse: “Olha, Beatriz, daqui uns 10,15 anos essa peça vai ser uma antiguidade” — lembra a artista. — Gostei da definição. As coisas vão evoluindo. Que bom que ele podia acompanhar essa ascensão.

Se no aconchego do lar cercado de peças de Sergio ela se deleita numa Mole, na sessão de fotos, na Lagoa, Beatriz toma cuidado para não parecer afundada na poltrona. Escolhe a pontinha do pufe, extensão da peça, para se acomodar.

— A Mole é quase uma personalidade do Rio de Janeiro — resume. — Mas para a foto é difícil encontrar uma posição que fique boa.

O diretor de criação e estilo Oskar Metsavaht, de 56, concorda que a Mole é uma delícia para sentar, mas faz ressalvas sobre a estética. Num jardim escondido na Mata Atlântica, na Gávea, ele se senta numa versão verde-musgo da peça e fala sobre a intimidade com a vida e a obra de Sergio:

— A Mole é bastante confortável. Mas não é a poltrona mais bonita do Sergio. Dizer que a Mole representa o carioca é uma leitura forçada. É uma poltrona relax e ponto.

O ator Ricardo Tozzi não faz cerimônia alguma quando se depara com a peça com a qual vai posar para a reportagem, numa escadaria no Parque da Catacumba. Deita, rola, abre os braços, bota os pés para cima, diz que está “mole na Mole”. Atualmente, Tozzi mora na Região Serrana, mais especificamente em Secretário, pouso que escolheu para investir num projeto de decoração recheado de peças de design. Completam o seu acervo nove cadeiras Tajá, de Sergio Rodrigues, garimpadas num antiquário em Minas Gerais.

— O Sergio tem o despojamento do Rio, e a Mole tem uma identidade que parece que ela fala com você. Ela representa a descontração do carioca. Ao mesmo tempo em que é minimalista, tem um design lindo, artesanal, cheio de detalhes, e não é austera — derrete-se Tozzi.

Fonte: O Globo | Leia mais: https://oglobo.globo.com

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