Eu, no iF

Um Wal-Mart inteirinho só do melhor do design mundial. Esta foi a impressão que tive quando entrei no imenso galpão no porto de Hamburgo, que por três dias foi o endereço de trabalho dos 58 jurados do iF Design Award 2017.

Eram corredores e corredores de produtos dos mais diversos tipos, tamanhos, cores, divididos em 7 disciplinas (e 54 categorias!), tendo como principal ponto em comum a alta qualidade do design, seja nas formas, nos acabamentos, no nível de inovação e outros atributos que tornam um produto passível de ser chamado de “bom design”.

Imediatamente me veio a memória de mais de uma década atrás quando recebi um telefonema para saber que tínhamos ganho nosso primeiro iF Design Award. Naquele ano de 2004 foram dois prêmios iF que deram início a uma estratégia bem sucedida de posicionamento do nosso escritório como um time premiado internacionalmente. Ganhar o iF representava o reconhecimento de um nível internacional de qualidade, não só para os profissionais de design envolvidos como para os fabricantes e suas marcas, que a partir do prêmio se posicionam de uma nova forma no mercado global.

Dessa vez na posição de júri, pude perceber muito claramente o trabalho sério de inúmeras marcas de países sem tradição em design, que passam a utilizar o prêmio iF não só como selo de qualidade, mas como porta de entrada para um mundo até muito recentemente dominado por marcas europeias, japonesas e norte-americanas. Produtos vindos de lugares tão improváveis quanto Bósnia-Herzegovina, Ucrânia e Panamá (só para ficar em alguns exemplos mais emblemáticos) competindo com projetos de muito boa qualidade em termos de design.

Levi, à direita, durante o júri

É engraçado, mas provavelmente este meu estranhamento deve ter sido muito parecido com o que os jurados do início dos anos 2000 tiveram quando produtos brasileiros começaram a ser inscritos e a ganhar prêmios numa quantidade sem precedentes. Anos depois, o Brasil já é percebido como um player importante no cenário do design mundial na perspectiva dos prêmios de design. Este ano foram 29 prêmios, que por mais que sejam um número menor que os anos anteriores, ainda é para lá de significativo.

O que não pude deixar de perceber foi a quantidade impressionante de projetos vindos da China. Já não são apenas produtos de baixa qualidade e “inspirados” em produtos de nações mais tradicionais no design, apesar de muitas inscrições do país asiático ainda terem estas características. Já se pode perceber projetos muito bem realizados, que trazem inovação e um grau de sofisticação no design bastante grande, fruto do alto grau de industrialização do país e da quantidade impressionante de designers formados que saem das universidades chinesas.  Foram 366 projetos chineses premiados, num total de 1495 projetos deles inscritos. Aliás, usando esta métrica, o nível de acerto do design brasileiro foi muito bom: 81 inscrições para 26 prêmios, num índice de premiação de 32%: muito bom.

Vale a pena falar também do nível de organização das sessões do júri: foram basicamente dois dias e meio de trabalho intenso, nos quais os trios de jurados (auxiliados por duas assistentes do iF) tinham em geral duas categorias para avaliar. Ou seja, algo entre 250 e 350 projetos. Só um processo muito bem estruturado e uma cronometragem German Style puderam garantir que ao final do processo 450 prêmios fossem concedidos, incluindo 56 Gold Awards, numa referência aos melhores dos melhores.

Mas, assim como o design, as premiações também vão se transformando na velocidade que a revolução digital nos impõe. Os prêmios são hoje algo que coroa com chave de ouro um projeto bem realizado, celebrando um processo que começou com um briefing ou apenas uma pergunta (prefiro a última), passou por todas as etapas de desenvolvimento e resultou num novo produto, marca ou serviço que de alguma forma impactou quem mais interessa: o usuário, o ser humano. O prêmio olha para o passado e confere no presente o selo de qualidade e de certeza de um trabalho bem feito.

Mas isso hoje já não é suficiente. É necessário olhar para o futuro, se posicionar (seja como designers, escritórios ou marcas) e assumir um propósito verdadeiro sobre como podemos criar experiências reais e factíveis que impactem as pessoas positivamente, e por consequência todo o ecossistema envolvido. E se este propósito resultar em algo que eventualmente seja premiado, melhor ainda!

** Levi Girardi, designer paulistano sócio do escritório Questto | Nó, foi o único brasileiro selecionado pelo iF para ser jurado na edição de 2017 do iF DESIGN AWARD.

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