Brasileiros vão para a Alemanha receber o “Oscar” do design

Designers brasileiros marcaram presença na entrega do iF Design Awards em Munique. Da esquerda para a direita: Paula Langie, Bruna Albuquerque, Letícia Castro (diretora do CBD), Valkiria Pedri. O diretor de projetos do iF Frank Zierenberg (agachado), Daniel Kroker, Bruno Camargo, Gustavo Giorgi e Elisa Tramontina. Foto: Verena Vötter / iF Design Award

A HAUS acompanhou a premiação com exclusividade, a convite do CBD, e fez a cobertura da cerimônia de premiação.

Todos os anos quando os vencedores do iF Design Awards são anunciados, a notícia dos produtos premiados vem acompanhada da explicação sobre a importância do certame para a área de design. Na cobertura de HAUS costumamos afirmar que este prêmio é o equivalente ao Oscar para o cinema. E não há nenhum exagero em tal comparação.

Na última sexta-feira (15), a Gazeta do Povo, por meio de HAUS, foi o único veículo brasileiro a acompanhar a cerimônia de entrega da 65ª edição do prêmio. O evento aconteceu no BMW Welt, um dos prédios contemporâneos mais imponentes de Munique, na Alemanha. A construção é simbólica para a marca e para a cidade. Nas dependências do Welt a BMW mantém uma espécie de galeria onde as ‘obras de arte’ são os carros.

“Neste cenário bastante elegante e em uma cerimônia conduzida com desenvoltura e bom humor pelo CEO do iF Design Ralph Wiegmann desfilaram designers, arquitetos e outros profissionais ligados à criação em grandes empresas pelo mundo. Entre as mais de duas mil pessoas presentes estiveram alguns dos brasileiros premiados em 2019.

“O CEO do iF Design Awards Ralph Wiegmann. Foto: Roman Thomas/iF Design”

De acordo com Letícia Castro, diretora do Centro Brasil Design (CBD), que esteve na Alemanha acompanhando o evento, a taxa brasileira de conversão de inscrições em prêmios é considerada alta, chegando, na média dos últimos anos, a cerca de 30%. “Todos os anos temos um número significativo de brasileiros. Dentro do iF estamos entre os 10 mais premiado do mundo, o que reforça a importância do design brasileiro”, explica Letícia. O CBD, com sede em Curitiba, é a entidade autorizada pelo iF Design a representar o prêmio no Brasil. “Uma das grandes características que a gente tem é a criatividade. Por vezes os designers enfrentam restrições orçamentárias e nesse cenário a criatividade é ainda mais importante”, diz.

O país levou para casa 16 certificações em 2019 nas áreas de design de produto, embalagens, design gráfico e de serviço. Na área do design de móveis o Brasil, há vários anos, tem um grande destaque, até pela tradição do mobiliário brasileiro. De acordo com Letícia, o que o CBD vem observando com alegria o desenvolvimento brasileiro nas outras disciplinas premiadas pelo iF, como a arquitetura e o design de embalagens e comunicação.

Dos 16 projetos brasileiros premiados, cinco tinham representantes na Alemanha. Conheça detalhes dos projetos que a partir de agora poderão usar o selo iF Design Awards para sempre.

Resgate de uma tradição

Embalagens de madeira fazem parte da história da família do jovem designer curitibano Bruno Camargo. Seu avô que emigrou da Europa para o Brasil na primeira metade do século passado, desenvolveu, no bairro Umbará em Curitiba, uma pequena fábrica que produzia as barrica de madeira para armazenar o chá vendido pela Leão Júnior.

Agora Bruno recebeu o prêmio de design pela linha Pipot, que se propõe a embalar, em uma caixa de madeira, bebidas e produtos alimentícios finos como queijos e vinhos. “Mas o Pipot pode também ser uma embalagem para joias e outras peças raras”, pontua. Ele acredita que seu projeto atualiza para a realidade comercial dos dias de hoje o que seu avô fez ao desembarcar por aqui.

“A linha de embalagens Pipot, assinada por Bruno Camargo. Foto: Divulgação”

Para o projeto Bruno desenvolveu uma técnica construtiva a fim de chegar ao resultado final do produto. “Criei uma máquina para trabalhar a madeira em lâmina sendo possível dar uma forma para o material sem que apareça a junção, o que confere um acabamento muito melhor”, relata.

Para o designer, ter o prêmio em mãos será importante para ir em busca de parcerias e também de novos projetos. Ele aproveitará a viagem para visitar produtores de queijos e vinhos em alguns países da Europa e finaliza sua expedição no Salão Internacional do Móvel de Milão na segunda semana de abril.
Azulejos com identidade

A arquiteta paulista Bruna Albuquerque tinha interesse por revestimentos cerâmicos ainda durante sua formação e notava a falta de produtos com padrões únicos, mais elaborados, no mercado. Deste pensamento nasceu, há 9 anos, a Lurca Azulejos. “A aplicação de padrões geométricos em azulejos é algo que sempre me interessou e o trabalho em serigrafia permite a entrega de uma linha de azulejos de design”, afirma.

As peças ganhadoras são da coleção “Vento”, formada por quatro padrões. “A conquista do prêmio significa a confirmação do trabalho que tenho desenvolvido. Penso que a repercussão será positiva para a o amadurecimento ainda maior da Lurca e facilitará o estabelecimento de parcerias”, prevê.

Lurca

Embalagem que comunica

Design e comunicação são áreas absolutamente correlatas. E observar os produtos de design premiados no iF Design nas categorias que envolvem embalagens só reforça essa ideia. É o caso das novas embalagens para as linhas de eletrodomésticos portáteis da Toshiba. As caixas foram desenvolvidas por Daniel Kroker e Valkiria Pedri, da Arbo Design, de Curitiba e oferecem mais do que proteção para o produto adquirido, elas fazem a comunicação no ponto de venda, uma vez que o layout permite que várias caixas empilhadas se transformem em um painel.”

Embalagens Toshiba

“Procuramos trabalhar com inovação ainda que o processo de produção seja tradicional. Entre os pontos a serem destacados está o uso de um acabamento em uma das faces que permite a inclusão de instruções em braile, garantindo a inclusão e acessibilidade”, pontua Daniel.

A dupla já havia se inscrito no iF mas na categoria de produto, por outro projeto. “Ficamos surpresos e satisfeitos em conquistar na área de embalagem”, diz Valkiria, que acredita no design de experiência e de serviço como um campo com muito potencial de crescimento no Brasil.”

Design e arte

A gaúcha Paula Langie, usa sua dupla formação: em design e artes visuais, para entregar um trabalho ainda mais completo e complexo para os clientes que atende na Néktar Design. Ela tem uma especial relação com o desenvolvimento de identidade visual para a área artística e conquistou seu segundo IF Design Awards em 2019 com o conceito e as peças criadas para a 11ª Bienal do Mercosul que aconteceu em Porto Alegre em 2018. A premissa do projeto foi mesclar as cultuas do Brasil e apresentá-las em peças visuais.

“Da primeira vez que estive na Alemanha recebendo um prêmio do iF foi para o trabalho visual feito por ocasião dos 10 anos da Néktar Design. Então era um prêmio onde eu era a cliente. Eu fico extremamente feliz que um produto artístico receba esse reconhecimento”, comemora.”

11 Bienal do Mercosul_Néktar Design

Paula já experimentou o resultado de uma premiação como o IF. “Conquistei clientes que me contrataram a partir da repercussão do primeiro IF em 2016. Além disso, penso que estar aqui, conviver com designers do mundo todo é adquirir conhecimento e tudo vira repertório para novos projetos.”

A difícil missão design no Brasil

Gustavo Giorgi, da Design Único, é um profissional já bastante testado na indústria e atualmente desenvolve produtos para a gaúcha Tramontina. Ele é enfático em afirmar que o recebimento do troféu do iF é o resultado de ao menos dois anos de trabalho. “A questão mais complexa no design de produtos é o gerenciamento de vários atores da produção. Um exemplo desse projeto: foram inúmeros dias colocando o despertador para tocar no meio da madrugada, a fim de entrar em contato com a fábrica que faz a ampola da garrafa lá na China”, relembra o criador da linha de garrafas térmicas Exata Airport.

Garrafa da linha Exata

As peças têm alça embutida, estética que o mercado de garrafas ainda não tinha. “É preciso registrar que a indústria para a qual eu trabalho não bloqueia a criatividade e desenvolvimento dos designers. Há um grande apoio para a área de design e esta filosofia sem dúvida contribuiu para esta conquista”, conclui.

Sobre o futuro do design no Brasil, Gustavo acredita que o país está em um processo. “Ainda leva-se tempo para convencer um cliente de que é necessário fazer diferente. E fazer diferente não é fácil, fácil é fazer o comum. O design brasileiro tem o seu valor, temos um olhar muito diferente, então precisamos ter um pouco mais de aposta, investimento e crença no que fazemos todos os dias”, conclui.”

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